Eduardo Levy é brasileiro, radicado em Los Angeles , e atua na área de produção e distribuição de filmes. Escreve regularmente para o jornal O Globo, principalmente sobre cinema e a cidade onde reside. Em sua coluna publicada em 29 de novembro de 2012, ele, com bom humor, fornece uma visão reveladora de um dos mais importantes aspectos da cidade: Seu trânsito. Merece ser lida, e por isso a transcrevemos abaixo. Obrigado Eduardo.  

 

Todos os caminhos levam a Los Angeles (por Eduardo Levi).

 

É de conhecimento de todos que não se deve discutir três assuntos publicamente: futebol, política e religião. Em Los Angeles , podemos acrescentar mais um: rotas de carro. Cada morador tem seu segredo, suas ruas preferidas, suas rotas de fuga: o melhor caminho para chegar do ponto A ao ponto B. São discussões que deixam marcas físicas e emocionais. Road rage, a reação exagerada de um motorista, e que por vezes leva a consequências seríssimas, pode não ter sido inventada aqui, mas certamente foi aperfeiçoada na região. Parece que todos têm um bastão de beisebol no porta-malas para situações de confronto extremo. Talvez nem seja opcional na compra de um novo veículo. Vou checar.

Não faz muito tempo, argumentei com um amigo que um caminho atravessando duas ruas e menos de três quilômetros deveria ser obrigatoriamente mais rápido, não importando o horário do dia, do que o caminho que passa por quatro autoestradas e uma dezena de ruas menores, cheias de sinais de trânsito em cada esquina, em um total de oito quilômetros. Nada, e afirmo, NADA, foi suficiente para convencer meu algoz a ceder e aceitar o óbvio. Ficamos dois dias sem nos falar até que testamos a teoria. E, sim, cheguei no destino combinado 22 minutos mais cedo. Isso, às 2h30m da manhã e com direito à comissão julgadora e árbitros imparciais em cada veículo. Ridículo.

Los Angeles, a cidade, pode ser circulada cobrindo as estradas 101, 405, 10 e 110. E se incluirmos 5, 105, 134, 170, 2 e a tão conhecida 1 - a Pacific Coast Highway - tudo fica pequeno, rápido de trafegar, certo? ERRADO. Êta cidade ruim para se locomover. Transporte público de m$^%&! Algumas linhas de metrô até funcionam. Os ônibus são uma brincadeira. E já tentou pegar táxi nas ruas como em qualquer cidade civilizada? Não há essa possibilidade. Ou você liga para a central e reza para um carro aparecer, ou anda até o hotel de luxo mais próximo - pode não ser tão próximo assim - e finge ser um dos hóspedes. Los Angeles sem carro? Sem jeito, amiga ou amigo. Escolhe outra cidade para viver ou visitar.

O jeito é, sim, discutir e ter seus caminhos definidos dependendo de onde esteja e, ainda mais importante, em que parte do dia precisa percorrer. De 8h às 9h da manhã? Só se for ao trabalho. De 17h às 18h da tarde? Melhor parar para uma cerveja ou duas ou três. E eu estou, sim, advogando em favor do alcoolismo neste caso!

Há sempre ruas escondidas, as surpresas que somente os “locais” conhecem. Quer chegar mais rápido ao aeroporto? Evite a 405 e pegue a Sepulveda all the way se estiver em Beverly Hills ou Brentwood. Se o ponto de partida for downtown, a 105 é perfeita. Em Hollywood tentando chegar a Silverlake? Franklin Avenue . Sunset Boulevard? Cruza a cidade inteira até o mar de Malibu. Mas só turista para percorrer o caminho lindo e maldito. Vai pela Olympic ou Pico. Mulholland Drive? Taí, além de cênica, uma boa alternativa para ir de leste a oeste da cidade. Funciona de oeste para leste, também. Não é por acaso que Los Angeles está virando uma das cidades onde mais se trabalha de casa no país inteiro.

Eu mesmo sou defensor da prática que me permite dormir uma hora a mais enquanto outros enfrentam buzinas e loucos de espécies variadas. E que lugar melhor para tirar uma soneca do que a sua própria cama? Quando preciso sair de casa, levo uma mochila com comida, casaco e kit de primeiros socorros. Sabe-se lá quando volto para casa?! Isso, se um terremoto ou incêndio fora de controle não atrapalhar meus planos.

Futebol, aquele esporte em que o Brasil uma vez na história já foi potência, vem crescendo aos poucos por aqui. A franquia de maior valor da Major League Soccer está em Los Angeles , onde David Beckham, Landon Donovan, Robbie Keane e Juninho, ótimo jogador brasileiro, defendem o L.A. Galaxy. No próximo fim de semana acontece a final do campeonato contra o Houston Dynamo, uma reedição do ano passado. Como sou Galático de carteirinha, estarei torcendo. No fundo mais raso, tenho uma vergonha enorme de ver pouco mais de 20 mil pessoas acompanhando o que parece final de terceira divisão das quais menos da metade falam inglês fluente. Preconceituoso? Convido o primeiro a escrever para a redação repudiando meu comentário para a final de 2013, isso se a mesma acontecer por aqui. Só peço em troca sinceridade ao sair do estádio emprestado de uma faculdade pública nos arredores da cidade.